Com uma história genérica e uma abordagem superficial de temas como abuso, perseguição e objetificação feminina, o longa desperdiça uma ideia que poderia render uma discussão muito mais potente.
Meus queridos, como estamos? Saudades de vir papear sobre filmes com vocês! Uma pena que o título da vez não colabora muito. Então, pega sua xícara de café e vamos conversar sobre “Garotas Só Querem Vingança” (Synapse Distribution, 2025). Ou “Os 90 minutos mais longos e sem conteúdo”…
Gente, dessa vez, vou quebrar um pouco o protocolo. Normalmente assisto aos filmes com o intuito de instigar que você vá ao cinema ou que deixe na sua lista de streaming. Com isso, tenho das mais diversas experiências: filmes que surpreendem deixando o espectador atento até os créditos finais; obras que divertem, entretém, trazem reflexões, críticas; mas também tem aqueles que, de tão ruim, ofendem a quem assiste. Mas “Garotas Só Querem Vingança”, na minha opinião, consegue ficar um nível abaixo dos filmes que ofendem. Consegue ser um desserviço, principalmente quando quer abordar de temas sensíveis.
Quem acompanha meu trabalho sabe o quão eu aplaudo obras femininas. Aliás, parece ser bobagem termos de bater na tecla de respeito às mulheres, mas é só rolar o feed em alguma rede social que vai ter alguém discursando o contrário. Só que essa obra… Talvez tenha a intenção de fazer algo diferente: mulheres empoderadas que não têm necessidade de uma figura masculina junto para se divertir. Mas a execução disso tudo deixou o roteiro tão banal que você não se conecta em momento algum com as personagens.

Inclusive, seria muito interessante ter um longa que aborde a liberdade feminina. Um grupo de amigas que saem numa viagem para curtir e se divertir, estilo “Se Beber, Não Case!” (2009). Curioso, não é? Filmes em que homens saem para farrear inconsequentemente temos vários.
Diferente das nossas conversas habituais, que trago um pouco sobre o que é o filme, alguma curiosidade ou um resumo da história. Aqui eu quero que você anote esse título para não assistir. Desculpa, gente, mas não dá! Filmes que pegam temáticas que são extremamente sensíveis e tratar de uma forma banal, na minha opinião, não merecem ser assistidos. Isso não quer dizer que mulheres não têm o direito de viajar e fazer o que quiserem, não é isso. Mas o longa retrata isso de uma forma quase pornográfica, em que o espectador não sente o peso que as cenas de abuso, perseguição e coação deveriam ter.
Eu nunca usei quantidades excessivas de álcool muito menos substâncias tóxicas, mas meu senso crítico entende que, talvez, não seja humanamente possível um grupo de pessoas beber uma quantidade exorbitante de álcool e dos mais diversos tipos de drogas e sair andando normalmente. Dirigir como uma pessoa totalmente sóbria, por exemplo. Mas, basicamente, é isso durante os primeiros cinquenta minutos de filme: bebedeira, xingamentos, drogas, confusões sem pé, nem cabeça. No meio de tudo isso, uma das meninas se envolve em uma situação de abuso. Só que o roteiro é tão mal executado que o espectador fica na dúvida do que está acontecendo. E a personagem, ao invés de comunicar para as amigas, o que de fato está acontecendo resolve fazer o quê? Isso mesmo, ingerir mais bebida alcóolica.

De novo, não estou querendo ser moralista. Não vou condenar mulheres, dizendo que elas não têm de se divertir. Mas esse filme pega temas sensíveis e importantes e trata com um total descaso. Podia muito bem trabalhar as questões de como mulheres acabam sendo objetificadas nos mais diversos lugares, como os homens acham que têm algum direito sobre o corpo delas, como a sociedade tem facilidade em culpar a vítima: “Ah, mas ela estava usando uma roupa muito curta eu não resisti”, entre outros argumentos esdrúxulos. E, ainda, como mulheres não podem se divertir tranquilamente sem ficar com receio de que algum sem noção venha importunar.
Se a intenção era de fazer algo estilo “A Empregada” (2026) – mulheres unidas contra um homem escroto – nossa, passou longe! Porque só vai acontecer alguma coisa no quesito “vingança” nos últimos vinte ou trinta minutos de filme. Até lá, força de vontade. Nem abraçando o filme você consegue se divertir.
É isso, meus queridos. Desculpem se me exaltei em algum momento. Mas, definitivamente, me incomoda ver assuntos sérios serem tratados dessa forma. Dito isso, passem longe de “Garotas Só Querem Vingança”. Assista “Antártida”, “A Empregada”, “Minha melhor Amiga”, “Adoráveis Mulheres” e “The Color Purple” (o musical). Temos excelentes filmes protagonizados com mulheres incríveis para dar audiência. Forte abraço! Thi.
Inédita no Brasil, a produção chega com exclusividade ao Filmelier+ em 1º de outubro.



