“A Vida Secreta de Meus Três Homens” é um retrato sensível do passado

“E nesse país, quando é que não foi perigoso viver?”

Como estão meus queridos, minhas queridas, nossos Dropzeiros de plantão! Hoje nossa conversa vai ser sobre algo que gosto muito: Cinema Nacional. Como é prazeroso assistir um longa brasileiro. Desde nossa última conversa, em “A Miss”, já assisti alguns outros filmes, desses um ou outro sobressaem. Agora quando é do nosso cinema, dificilmente vai ficar na caixinha do “mais do mesmo”.

Bem, sei mais delongas, se aconchega do lado daí e vamos conversar sobre “A Vida Secreta de Meus Três Homens” (Embaúba Filmes). Uma produção de Letícia Simões que nos leva a olhar para a vida de pessoas que passam pelas nossas vidas de uma forma diferente. O longa promove o encontro de três fantasmas, inspirados nas figuras do avô, do pai e do padrinho da cineasta, reunidos em torno da pergunta: como chegamos ao Brasil de hoje?

Cabine de imprensa virtual é “bom” pela comodidade de assistir em casa. Mas esse filme pede a imersão que a sala de cinema proporciona. É aquela produção que te convida a desconectar das coisas ao redor e viver essa experiência. A sensação é que em um piscar de olhos ele termina, mas consegue falar tanto em tão pouco tempo. Faz o uso de várias formas para se expressar, enquadramentos, animações, luz, fotografia. Mas – ao mesmo tempo – sem exageros, tudo é feito sob medida para que a mensagem não se ofusque.

Como é bom assistir uma produção “simples” mas extremamente bem feito! A premissa, até então comum de reunir as figuras masculinas da família da personagem e conhecer melhor suas histórias. E, com o passar os minutos, você entende que nada é tão simples assim. A vida não é simples.

Talvez as gerações atuais não tenham o costume de ter porta-retratos em casa. Hoje em dia é tudo tão virtual e tecnológico, que parece não ter sentido a pessoa ir a um estabelecimento revelar uma fotografia e colocar em um quadro. Para que, se não vai gerar visualizações, likes e engajamento? Quando criança, tenho a memória viva de ir na casa da avós, tios e ter várias fotos. Alguns eu reconhecia outros levantava o questionamento “quem é esse vô?”. Por sorte peguei esse costume também, isso é história, faz parte de quem eu sou hoje.

Logo de cara o filme faz esse exercício conosco, de olharmos o nosso passado. Ao olhar para o Thiago criança na foto, pensar se teria algo a dizer ou não. Olhar para o meu avô que está comigo no retrato, o que será que eu diria a ele? Mas o longa vai além: qual a história por trás dessa pessoa na foto? Será que condiz com a realidade da época, ou era uma imagem que a sociedade impunha para as pessoas naquele tempo?

“A Vida Secreta de Meus Três Homens” nos convida a olharmos para essas fotografias, para essas pessoas e nos questionar: quais segredos essas pessoas carregavam? Quais os seus desejos e sonhos que por meio da realidade daquela época precisaram ser deixados de lado? O quanto a figura masculina era moldada para ser quase que uma entidade, imaculada, que não aceita falhas?

Conforme cada personagem toma a fala, vamos descobrindo mais profundamente deles. É uma ficção mas é quase como um relato documental. Em algum ponto ou outro a gente se identifica com algum personagem, com a narração, com a história. Assisti-lo foi uma experiência visceral.

Vocês sabem o quanto sou apaixonado pelos detalhes. E, aqui, tudo foi pensado e executado de uma forma que ajuda a contar ou dar continuidade a história. Os cenários, que por vezes são simples, mas que têm cada elemento ali escolhido propositalmente para aquele personagem. O contraste entre as três figuras masculinas e a forma como o filme se molda para contar a história de cada um. A forma como os diálogos são construídos, como a câmera se movimenta entre um e outro. Tudo ali está para reforçar a realidade que aquele personagem viveu.

Um dos momentos que mais chamou atenção foi entre o diálogo dela com a figura de seu pai. De novo, um cenário simples: de um lado temos a figura paterna, sentado na ponta de uma mesa muito longa. Do outro lado dessa mesa tão grande temos a filha, tentando conversar com a figura imponente do pai. Inclusive fiz questão de anotar uma das falas: “Cara, é impressionante como um homem não sai de cima do pódio, do altar que ele cria pra si, é muito impressionante.” Tudo que ela queria era conhecer sobre o pai, mas tudo que ele consegue oferecer é uma narrativa que não condiz a realidade.

Queridos, eu queria muito poder falar mais sobre esse filme, porém não quero me alongar muito além do necessário aqui. Então o que eu peço, assistam “A Vida Secreta de Meus Três Homens” e venham conversar comigo nos comentários do post. Esse é um longa que precisa ser apreciado nas telonas. Assistir sem distrações, com carinho e atenção que ele merece. O que mais posso dizer? Fico extremamente honrado de ter vivido essa experiência, quando subiram os créditos deu aquele quentinho no coração de que o nosso Cinema Nacional é maravilhoso.

Reforço aqui o convite para você assistir, pesquisar e ir atrás desse filme. Lembrando que o primeiro final de semana é sempre muito importante para esses longas. E deixo aqui meu caloroso abraço, Thi.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Sinopse: Acompanhada por três fantasmas, seu pai, Fernando, que colaborou com a ditadura militar; seu avô, Arnaud, que fugiu de casa e encontrou refúgio entre cangaceiros justiceiros; e seu tio Sebastião, um homem negro e gay não assumido, que viveu anos reprimido após perder seu grande amor para o preconceito, Letícia Simões mostra como as vivências deles contribuíram para o Brasil de hoje.

A Vida Secreta de Meus Três Homens
Gênero: Ficção científica
Duração: 1h 15m
Data de lançamento: 5 de março de 2026
Diretora: Letícia Simões