True Crimes: “Assassinos precisam ser presos, mas depende…”
True Crimes vem se popularizando nos últimos anos, histórias deste tipo estão entre as mais assistidas em grande parte dos streaming. O gênero possui todos os tipos de narrativa: documentários, séries, minisséries, filmes, e isto faz surgir um fenômeno, no mínimo interessante, assassinos que são perdoados e acolhidos, pois na visão do grande público, tiveram seus motivos, e foram injustiçados.
Para que possamos entender um pouco sobre esse gênero, trago uma explicação rápida. Gêneros true crime são produções que exploram crimes reais, abordando os envolvidos e as investigações, e podem ser dramatizadas ou documentais. O termo “true crime” é uma tradução do inglês para “crime real” ou “crime verdadeiro”. O gênero true crime pode ser encontrado em diversas plataformas, como livros, filmes, podcasts e programas de televisão.
Agora que já entendemos um pouco sobre o gênero true crimes, falaremos sobre o fenômeno “Assassinos precisam ser presos, mas depende…”, é interessante a forma com que pessoas que cometem, esse tipo de crime são vistas, principalmente depois de serem retratadas nas séries que viralizam. Obviamente, sabemos que muito vai da narrativa escolhida para a trama.
Séries True Crimes
Posso dar o exemplo da série “Monstros: irmãos Menendez: assassinos dos pais” da Netflix.

A série de Ryan Murphy e Ian Brennan, estrelada por Javier Bardem, Chloë Sevigny, Cooper Koch e Nicholas Alexander Chavez. Conta a história dos irmãos Lyle e Erik Menendez condenados pelo assassinato brutal dos pais em 1989. Eles alegaram legítima defesa, pois temiam ser mortos pelos pais, que acusaram de abuso físico e emocional. Os irmãos foram condenados em 1996 à prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional.
Apesar das séries contarem as histórias de crimes reais, elas acabam sendo desenvolvidas para atrair o público, e gerar muitas vezes, debates e controvérsias, no entanto, o gênero true crime muitas vezes é insensível às vítimas e também às famílias envolvidas.
Não tão atual, temos o exemplo da série “The Act”. Estrelada pela atriz Joey King, conta a história de Gypsy Blanchard, que ganhou destaque mundial ao ser condenada pelo assassinato em segundo grau de sua mãe, que a submeteu a abusos físicos, mentais e médicos ao longo da vida.

As duas séries citadas, tem histórico de abusos infantis que resultaram no assassinatos dos pais, entretanto, a narrativa escolhida entre as duas, são bem diferentes. The Act, apresentou acontecimentos que vieram a público quando o caso foi exposto. Inclusive, Joey King afirmou que chegou a falar com a verdadeira Gypsy.
“Gypsy me mandou mensagem recentemente. Nós não tivemos nenhum contato enquanto filmávamos a série, mas agora que foi lançada, ela me contatou, e tivemos uma troca rápida, o que foi muito legal”.
Em compensação, o mesmo não acontece com a série “Monstros: irmãos Menendez: Assassinos dos pais”, muito criticada pela sua narrativa erotizada e, em alguns pontos, exagerada, em relação a história dos irmãos, e que vai muito além, dos fatos que todo mundo conhecia, fazendo até algumas adaptações que alteraram fatos da cronologia do crime. Inclusive, eles falaram sobre a série logo que ela estreou.
“Eu achava que as mentiras e as representações tendenciosas que recriavam Lyle eram coisa do passado, que tinham criado uma caricatura de Lyle baseada em mentiras horríveis e descaradas e que agora voltam a abundar na série”, destacou.
“Só posso acreditar que fizeram isso de propósito. Com grande pesar, digo que acredito que Ryan Murphy [criador da série] não pode ser tão ingênuo e impreciso sobre os fatos de nossas vidas a ponto de fazer isso sem má intenção”, acrescentou o irmão mais novo.
True Crimes pecam quando distorcem narrativas?
Conheci as duas histórias, há alguns anos atrás, pelo canal Investigação ID, e assim como qualquer pessoa que conhece os casos, tem momentos que repensei várias situações expostas. Quando a Netflix anunciou a série dos irmãos Menendez, eu fiquei curiosa para saber qual seria a narrativa escolhida, e não me surpreendeu a sexualização e romantização por puro entretenimento.
No entanto, o que mais me assusta, é que as pessoas realmente compram isso de uma maneira, no mínimo estranha. Com motivos, ou não, eles mataram pessoas a sangue frio, e isso, não está em discussão. Se, os irmãos Menendez devem, ou não, permanecer presos, só a justiça, baseada nos arquivos vai decidir. Lembrando que a Gypsy já cumpriu sua pena, e hoje está em liberdade.
E quando, de fato, isto acontece?
Esse apelo popular nas redes sociais, transformando assassinos em mártires, celebridades incompreendidas, e muitas outras coisas do gênero, não dá para entender. É um tanto quanto bizarro! E infelizmente, parte disso, vem do público que assistiu a série, e fantasia a história de uma maneira absurda. Não conseguindo separar os personagens interpretados pelos atores, dos reais assassinos.
O fato deles terem sido abusados, não muda o fato que mataram pessoas. A lei do “aqui se faz, aqui se paga”, mediante a uma série que fantasia inúmeras situações, para ter esse apelo, não deve ser motivo de campanha de libertação. Nesse momento, questiono se as séries True Crimes perderam o seu real papel de informar, e vem se tornando, apenas, entretenimento sem responsabilidade.
Opinião:
Deixo claro que não torço, nem quero que eles, se tornem párias, excluídos da sociedade, caso obtém liberdade. No entanto, transformá-los em celebridades, como foi o caso de Gypsy, é estranho. Acredito sim, que após cumprirem suas penas, merecem uma socialização, e uma nova chance de mostrar a sociedade que aprenderam com seus crimes. Entretanto, colocá-los nesse deslumbramento que vivem as redes sociais, só é mais uma passo de regressão ao entendimento do que de fato cometeram.



