It: Bem-Vindos a Derry transforma terror em impacto

A série da HBO revisita a cidade amaldiçoada de Derry nos anos 60, aprofunda a mitologia de Pennywise e entrega um terror corajoso, político e emocionalmente devastador.

It: Bem-Vindos a Derry me surpreendeu profundamente. Eu, que não costumo me envolver facilmente com séries, me vi completamente mergulhada, envolvida e até obcecada pelo universo proposto por Andy Muschietti.

Confesso que o primeiro episódio causou certa estranheza. Pausei, voltei cenas, questionei escolhas narrativas. Mas, a partir do segundo capítulo, algo muda. A série encontra seu ritmo e, principalmente, seu propósito. Quando a história passa a abordar de forma direta a tensão racial presente em Derry, o impacto é imediato.

O roteiro é explícito até nos detalhes, sem sutilezas confortáveis. Tudo está ali, exposto. Mesmo para quem não possui o mínimo de letramento racial, alguns episódios são difíceis de assistir. O segundo episódio e os dois últimos são verdadeiros socos no estômago.

Um retorno inesperado de Andy Muschietti

Andy Muschietti, diretor e produtor executivo da série, é o mesmo responsável pelos filmes recentes de It. E talvez o maior choque esteja justamente aí: eu realmente não gostei dos filmes. Ainda assim, Bem-Vindos a Derry consegue me conquistar de uma forma que eu não esperava.

A primeira temporada é ambientada na década de 1960 e acompanha eventos estranhos que assolam a cidade, incluindo o Massacre do Black Spot. Todos esses acontecimentos estão ligados à figura de Pennywise, a entidade que assombra Derry há gerações. Aqui, começamos finalmente a entender a origem dessa presença maligna e por que a cidade parece condenada desde sempre.

Personagens que sustentam a narrativa

Bill Skarsgård retornando como Pennywise é simplesmente fantástico. Mesmo com todas as minhas ressalvas aos filmes, é inegável que ele nasceu para esse papel. Na série, vemos um Pennywise ainda mais brutal, demoníaco e sanguinário. Um espetáculo à parte.

O elenco como um todo merece destaque. Carismático, bem construído e com histórias que realmente importam, não existe núcleo fraco. A série se sustenta tanto na presença quanto na ausência do palhaço, e isso fortalece ainda mais a tensão.

O núcleo infantil é especialmente cativante. Acompanhar a construção da amizade desses personagens é emocionante. Você torce, sofre e chora com eles. A relação se desenvolve episódio a episódio, de forma orgânica e envolvente. Arian S. Cartaya e Blake Cameron roubam a cena como Rich e Will. Inclusive, é de um deles a cena mais icônica do último episódio, reforçando uma das frases mais marcantes da série: ninguém que morre em Derry realmente morre.

 

Uma série sem medo de arriscar

It: Bem-Vindos a Derry é uma série corajosa. Por isso, cuidado ao eleger algum personagem como favorito. Ele pode não chegar vivo ao final do episódio. Essa imprevisibilidade cria um estado constante de apreensão. Ninguém está a salvo, e o espectador sente isso o tempo todo. Assistir se torna uma experiência tensa, quase participativa, já que o risco está sempre presente.

O futuro da série e a mitologia expandida

Andy Muschietti já confirmou que a série tem planos para três temporadas. A ideia é explorar diferentes ciclos históricos de Pennywise, ampliando a mitologia criada por Stephen King e aprofundando a história da cidade amaldiçoada.

A proposta é clara: contar a história de Derry em três períodos distintos de terror. A segunda temporada deve focar em 1935, enquanto a terceira retorna ainda mais no tempo, em 1908. O final da primeira temporada deixa portas abertas para essas novas incursões, sugerindo que a entidade pode se manifestar em diferentes épocas simultaneamente.

Em uma conversa marcante no final do episódio, Lilly e Marge Truman reforçam a ideia de que o tempo, passado, presente ou futuro, não se aplica à entidade. Essa quebra de linearidade permite que A Coisa transite por múltiplas linhas temporais, ampliando ainda mais o horror.

Filmes x Série: uma nova perspectiva

Ao conectar os eventos da série com os filmes, Bem-Vindos a Derry deixa claro quem são os verdadeiros heróis dessa saga: a família Hanlon. Do avô Leroy, militar nos anos 60, ao bibliotecário solitário de 1989, Mike, acompanhamos gerações que sempre vigiaram a escuridão.

A série responde uma pergunta antiga: por que Mike era o único que não deixava Derry nos filmes? A resposta é pesada e poderosa. Trata-se de um dever de sangue. Uma herança de uma guerra iniciada muito antes de seu nascimento. Mike é filho de Will e representa o resultado direto da luta de todas as gerações anteriores. Esse arco narrativo é simplesmente absurdo de tão bem construído.

Depois de ter assistido a três filmes dirigidos por Andy Muschietti, os dois It e Flash, sem ter apreciado nenhum deles, It: Bem-Vindos a Derry muda completamente minha percepção sobre o diretor. A série faz exatamente o que se espera de um bom prequel de terror: ousa sem apelar, explica sem entediar e ainda consegue elevar a qualidade da obra que veio antes.

Um cuidado extra com o espectador

Após cada episódio, a experiência não termina nos créditos. A série apresenta uma prévia do próximo capítulo e, em seguida, a HBO exibe bastidores com entrevistas e comentários do diretor e do elenco. Esse material adicional é riquíssimo e amplia ainda mais a compreensão da obra.

It: Bem-Vindos a Derry não é apenas uma expansão de universo. É uma revisão profunda, corajosa e necessária de tudo que Derry representa. Terror que incomoda, provoca e permanece muito depois que a tela escurece.

Nota: ⭐⭐⭐⭐

Sinopse: Na década de 1960, eventos estranhos acontecem na cidade de Derry ligados ao palhaço Pennywise, uma figura misteriosa que assombra o local.

It: Bem-Vindos a Derry (1 temporada)
Gênero: Terror, Mistério
Primeiro episódio: 26 de outubro de 2025 (EUA)
Emissora original: HBO
Baseado em: It de Stephen King
Elenco: Jovan Adepo; Taylour Paige; Chris Chalk; James Remar; Stephen Rider; Madeleine Stowe; Rudy Mancuso; Bill Skarsgård