Com delicadeza e leveza, o longa aborda relações familiares, verdades escondidas e os desafios de crescer, mostrando que o diálogo pode ser o primeiro passo para reconstruir laços.
Meus queridos, este final de ano está recheado de filmes nacionais! Fica até difícil escolher qual assistir primeiro, mas a certeza de que o nosso país produz obras de qualidade, ah isso é uma grande verdade! Não à toa que hoje trago para nossa conversa um longa que tem um tom leve para abordar dilemas e segredos familiares em um Brasil pré-redes sociais – admito que ao assistir bateu uma saudade de quando as coisas eram mais simples. Vem comigo mergulhar e conhecer “Medley” (Vitrine Filmes).
Nessa história, vamos conhecer Lola, uma nadadora de 16 anos, que já conquistou diversas medalhas. Logo de início percebemos que o excesso de trabalho acaba impedindo sua mãe de acompanhar essas conquistas. O relacionamento mãe e filha não está em uma boa fase e, no meio de uma discussão, Lola resolve ir para a casa do tio, em Salto Bonito. Durante a estadia, vários sentimentos vêm a tona, memórias do passado e desafios no presente.
A experiência de assistir essa obra foi perceber que: por mais que não saibamos lidar com determinadas situações, ou queremos proteger alguém de se ferir emocionalmente, uma conversa saudável é sempre a melhor saída. Compreendo que, muitas vezes, os familiares privam seus filhos de algum incidente do passado, não com o intuito de prejudicar propositalmente, mas zelando pelo bem e o cuidado. Mas, acredito eu, que essas conversas sérias sejam necessárias.
Para evitar spoilers, vou trazer alguns exemplos que se assemelham com a narrativa do filme. Gosto muito de acompanhar podcasts que contam histórias dos ouvintes. Então, infelizmente, já ouvi causos das mais diversas e improváveis situações. Como, por exemplo, filhos que descobrem que são adotados depois de se tornarem adultos. Mães solo, que dão a vida para que o filho tenha uma vida digna, mesmo sem a presença do genitor.

É claro que não podemos generalizar ou criar um padrão de como as coisas vão se desenrolar ao longo da vida. Temos casos que a pessoa, ao saber da adoção, prefere não saber quem são os pais biológicos, ou então buscam ter contato, mesmo correndo o risco de uma frustração. E até mesmo casos em que a mãe deixa de contar ao filho a real identidade do genitor. Porém, quando o mesmo surge bancando o bom moço, mesmo o filho sendo criado da melhor forma possível, se volta contra a própria mãe. Acreditando nas falácias do genitor.
Conseguem compreender? A verdade, muitas vezes, pode doer. Mas esse sentimento pode ser amenizado com uma conversa honesta e sincera. Ai, ai… Falando assim parece tão simples e fácil, né? Essa é a vida: acabamos optando por caminhos “supostamente” mais fáceis, acreditando ser o “melhor”. E que, às vezes, até pode até ser. Afinal, na vida não existem fórmulas mágicas ou uma varinha de condão que ao falar “Bibbidi-Bobbidi-Boo” tudo se resolve.
Ao assistir “Medley”, pude perceber que, na intenção de proteger Lola de um passado duro, sua mãe acabou criando um muro, afastando-a de sua filha. As tentativas de se aproximar levam a filha a ficar mais distante sem querer. O longa me fez perceber e refletir como relacionamentos não são lineares. Podemos até acreditar que sabemos o que estamos fazendo, que estamos no controle. Só que, na realidade, não é bem isso que ocorre – e quando nos damos conta, parece que fizemos tudo errado. Uma situação que deveria ser simples acaba se tornando uma tempestade. São nesses momentos em que vemos a necessidade de construirmos relações saudáveis, com respeito, diálogo e honestidade.

“Medley” consegue, com um toque de leveza, pegar temas difíceis para um adolescente de 16 anos lidar – quem nunca foi adolescente e achou que uma situação X era o fim do mundo, não é – mostrando que é possível achar uma saída no meio do caos. Em meio ao turbilhão de emoções e lembranças do passado, tem como juntar as peças para dar mais um passo. Tendo suporte, seja da família ou sua rede de apoio, o que é um pesadelo pode ficar mais leve.
É impossível não mergulhar na trama ao assistir esse filme. Ele tem uma pegada bem mais leve de “Feito Pipa”, mas que também consegue trazer a beleza da vida real para as telonas. Uma sociedade onde as pessoas não estavam fixamente com os olhos no celular, se alimentando de redes sociais. Onde conseguimos ver a beleza e sentir saudade de tempos mais simples. Obviamente não condeno o avanço da tecnologia, só fico com a sensação após assistir que, talvez, as pessoas não estejam vivendo, somente existindo ou tendo uma vida baseada no algoritmo das redes sociais.
Apaixonado por detalhes que sou, é praticamente impossível não se encantar com a produção do longa. É como voltar vários anos no tempo: os cenários, figurinos, a forma como as pessoas interagem, tem toda uma preocupação e cuidado para realmente fazermos essa viagem temporal com os personagens. Quando algo é bem produzido e executado, o espectador se conecta quase que imediatamente com o que está assistindo. E é pego de surpresa como, por trás de toda aquela energia leve e alegre, existem questões tão densas de se digerir. A gente se envolve e se emociona com os personagens, torce por eles, critica suas decisões e tem a esperança de que no final vai dar tudo certo.

Bom gente, pra terminar, vou bater de novo nessa tecla: final de semana da estreia de uma obra nacional é SEMPRE importante. “Ah, mas Thi, pra quê falar isso toda hora?” É simples darling, quanto a maior a procura, mais tempo fica em exibição. Ficando por mais tempo, outras pessoas podem ser alcançadas para assistir essa obra. Imagine que você assiste um filme excelente, mas quando vai recomendar a alguém já não esta mais no cinema?
Para quem ainda duvida que o nosso país tem obras excelentes, confere nossas últimas conversas, escolhe um dos títulos: “Medley”, “Feito Pipa”, “As dez vantagens de morrer depois de você”, “Minha Melhor Amiga”… Assiste e me dá um feedback de o que achou. Combinado?
Um abraço. Thi.
Nota: 



Sinopse: Lola é uma promessa juvenil da natação que possui um vínculo de trauma e cura com a água. Vivendo um relacionamento conturbado com a mãe, a garota viveu um choque no passado que a impede de nadar o estilo borboleta, algo que ela precisa superar para dominar as piscinas e abraçar todo o seu potencial.
Data de lançamento: 1 de outubro de 2026 (Brasil)
Diretora: Ana Luíza Azevedo
Produção: Mara Lobão, Rodrigo Montenegro
Duração: 1h 33m
Roteiro: Keka Reis



