100 Noites de Desejo: um mundo de conto de fadas que espelha a realidade

Filme transforma uma história de época em uma poderosa reflexão sobre machismo, conhecimento e resistência

Cherry vive em um mundo onde mulheres são obrigadas a casar, servir aos maridos e gerar herdeiros. Pressionada por um casamento infeliz, ela encontra apoio na empregada Hero.

Olá, meus queridos! Junho chegou trazendo dois filmes excelentes. Caso você tenha perdido nossa última conversa, dá uma conferida aqui. Hoje falaremos de um filme que chegou de forma “tímida”, mas que surpreende nas camadas que desenvolve! Preparados? Então, bora conversar sobre “100 Noites de Desejo” (Paris Filmes). Será que temos um forte candidato a ser uma atualização dos contos de fadas?

Temos aqui uma boa adaptação de título, mas admito que o original faz mais sentido. É que nem quando você assiste “Viva: A Vida é uma Festa” e depois percebe que “Coco” carrega uma camada de sentimento a mais para o longa. Bem, chega de devaneios, Thi. Vamos ao que interessa.

Nesta história, vamos voltar no tempo. O filme se passa no mundo alternativo conhecido como Darkly End. Em uma realidade em que mulheres não tinham voz, eram dadas ao casamento, deveriam servir ao marido e gerar herdeiros.

Cherry (Maika Monroe) vive um matrimônio infeliz com o distante e negligente Jerome (Amir El-Masry), que não quer passar nenhum tempo com ela, mas que deseja ter um herdeiro a qualquer custo. Logo de início, na apresentação dos personagens, você já sente esse peso em cima dela. É quase uma cena de julgamento. Ela se vê pressionada, literalmente, a gerar um herdeiro – um filho; filha nem pensar – caso contrário, perde o direito de viver.

A única alegria do dia de Cherry é a devota empregada Hero (Emma Corrin), com quem pode confidenciar sua vida. Quando Jerome faz uma viagem de negócios misteriosa, Cherry fica sozinha com o inesperado convidado Manfred (Nicholas Galitzine), o amigo lascivo e charmoso do marido.

Logo nos primeiros minutos, a gente já sente o desconforto que essa trama nos causa. O homem? Um ser “inocente”, que quer ter herdeiros, assim como seus antepassados. Tópico esse defendido com unhas e dentes por outro membro da família: “Nós sempre produzimos excelentes herdeiros, todos homens”.

Só de me lembrar dessa cena me dá uma gastura. Mas o que esse pobre ser “inocente” não admite para as pessoas é que ele nunca consumou o casamento. E, mesmo sabendo que sua esposa está correndo risco por não gerar um herdeiro, o que ele faz? Sai em “viagem de trabalho”. (Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, meus caros).

Em contrapartida, ela encontra alívio e acolhimento em uma das empregadas que se torna sua melhor amiga e confidente. Essa empregada, Hero, sabe tudo o que estava acontecendo. Mas como são mulheres, elas não têm direito de fala. E quando esse “pobre homem”, subitamente, sai em viagem – deixando sua esposa sozinha com um rapaz muito bem apessoado – Hero acaba se tornando uma heroína para Cherry. Porque, nos momentos em que ela se sente desconfortável com o rapaz, Hero vem e começa a contar uma história para eles.

Nesse ponto é como se o longa se dividisse em dois. Pode até parecer confuso, mas confiem: é algo que vai trazer mais subtexto para a trama, gerando no espectador mais e mais reflexões de até onde isso é só uma ficção? Meus queridos, é o tipo de filme que é ótimo de assistir com pessoas mais próximas para, depois da sessão, sair para comer alguma coisa e debater sobre as diversas camadas que ele tem.

Uma das minhas animações favoritas é “A Bela e a Fera” (1991), dentre diversos motivos, porque acho a personagem da Bela muito forte. Uma das suas maiores qualidades era ser taxada como “esquisita”. Uma mulher que sabe ler e se interessa por leitura? Que tem um dos homens mais admirados do vilarejo interessado e ela o rejeita? Ela só pode ser louca!

Essa é só uma das camadas que “100 Noites de Desejo” aborda. Mulheres que têm o “poder” do conhecimento? Que sabem ler? Bruxas! Não tem outra explicação. A mulher não tem de saber ler ou escrever, ela tem deve administrar um lar e gerar herdeiros. E os homens? Ah, alguns deles podem até, de fato, amar suas esposas e serem felizes. Isso somente se cumprirem esses requisitos, caso contrário o “pobre coitado” pode se casar novamente. Visto que ele é uma “vítima”, pois uma mulher não pode ter mais conhecimento que ele.

Essa obra tem um quê de conto de fadas, mas com os pés na realidade. Mostra como existe um universo em que os homens vivem de aparência perante a sociedade em que as pessoas ao redor devem tê-los como referência, bem como cumprir suas vontades e desejos. Mas também mostra o que é necessário para mudar essa realidade.

Inclusive, isso era algo que vinha refletindo. Mas “100 Noites de Desejo” me fez ter certeza: o conhecimento é nosso bem mais precioso e as pessoas não estão valorizando. Se influenciam por qualquer post em rede social, acreditando como verdade qualquer coisa, sem ao menos verificar se aquilo aconteceu de fato. Enquanto muitas pessoas dos séculos passados estavam, talvez, arriscando suas vidas por um pouco de conhecimento.

Hoje, com a facilidade de acesso à informação, graças à tecnologia, as pessoas não dão o devido valor. É mais cômodo acreditar no que uma pessoa fala em um vídeo de poucos segundos do que abrir um livro ou fazer uma pesquisa no navegador em menos de um minuto. Triste.

Queridos, “100 Noites de Desejo” é o tipo de filme que quando os créditos sobem nossos sentimentos ficam borbulhando. Nos emocionamos com a forma como tudo termina, mas, ao mesmo tempo, ficamos com o incômodo de como ser diferente é visto como abominação. Se em “Labirinto dos Garotos Perdidos” tínhamos a falta de acolhimento, aqui temos a ignorância como o grande vilão da sociedade.

Definitivamente, vale uma sessão entre amigos para depois – em conjunto – debater as diversas camadas. Então, já sabe, né! Chama sua turma para assistir e, depois, vem me dizer o que achou. Um abraço, gente! Thi.

Nota: ⭐⭐⭐⭐

Sinopse: Quando um hóspede encantador chega a um castelo isolado, a delicada dinâmica entre um marido negligente, sua inocente noiva Cherry e a dedicada criada Hero vira um caos.

Gênero: Fantasia/Romance
Duração: 1h32m
Data de lançamento: 4 de junho de 2026 (Brasil)
Diretora: Julia Jackman
Autora: Isabel Greenberg