Apoiar, assistir, existir: o cinema brasileiro em foco

Tudo o que chega às telas começa muito antes da primeira cena

Nasce do sonho, passa pela escrita, pela direção, pela produção, pela atuação e pelo trabalho coletivo de inúmeros profissionais que movimentam uma indústria inteira. Cada filme carrega escolhas, memória, presente e futuro.

Apoiar o cinema nacional é entender que nenhum incentivo é pequeno. Estar na sala de cinema no primeiro fim de semana, marcar presença nos festivais, falar sobre filmes brasileiros na imprensa e nas redes sociais amplia vozes e fortalece trajetórias. Mas o caminho também exige políticas públicas, editais de financiamento, espaços de exibição e continuidade.

Cabe a todos nós cobrar das autoridades o compromisso com a cultura, com a diversidade de histórias e com o direito de imaginar outros mundos. Pensando nisso, apresentamos um catálogo de filmes nacionais que chegam às telas este ano.

A Miss — de Daniel Porto, protagonizado por Helga Nemetik, Maitê Padilha, Pedro David e Alexandre Lino, o longa chega aos cinemas com distribuição da Olhar Filmes. O longa foi exibido no Actrum International Film Festival (AIFF), na Espanha; no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+, na Itália e será projetado no 39º Queergestreift Film Festival Konstanz, na Alemanha.

Anistia 79 — de Anita Leandro. O longa resgata imagens raras de uma Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, filmadas por exilados brasileiros em Roma, em 1979, um marco da luta pela Lei da Anistia e pela redemocratização do Brasil. O filme faz parte da programação da 29º Mostra Tiradentes dentro da categoria Olhos Livres.

Ato Noturno — de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Distribuído pela Vitrine Filmes, o longa foi selecionado para a mostra Panorama e representou o Brasil na 75ª edição do Festival de Berlim, em fevereiro de 2025. Protagonizado pelo ator revelação Gabriel Faryas, trata-se de um suspense erótico que entrelaça desejo e performance em uma narrativa tensa e sensual sobre identidade e a constante gangorra entre o instinto de se render a ela e a pressão social para negá-la.

A Vida Secreta dos Meus Três Homens — de Letícia Simões, o novo longa da diretora reúne um trio de fantasmas para investigar como o Brasil chegou até aqui. Fernando, boêmio pai de família e colaborador da ditadura militar; Arnaud, adolescente que envolveu-se com um grupo de justiceiros; Sebastião, fotógrafo negro e gay que perdeu o amor de sua vida. Por meio de uma conversa com eles, questões como classe, gênero, raça são discutidas como atravessaram o século XX e chegam ao país de hoje.

A Voz de Deus — de Miguel Antunes Ramos, o documentário brasileiro explora o fenômeno dos “pregadores mirins” no Brasil, acompanhando dois jovens, Daniel Pentecoste e João Vitor Ota, em diferentes fases de suas carreiras de pregação, mostrando as complexidades da fé, fama e o contraste entre o sucesso viral e o futuro incerto em um país em transformação

Álibi — de Felipe Joffily. Com distribuição da Imagem Filmes, o longa reúne grandes nomes do humor brasileiro, como Leandro Hassum, Miá Mello, Fernanda Freitas, Maurício Destri e Letícia Isnard.

Aqui Não Entra Luz — de Karol Maia. Premiado no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com os troféus de Melhor Direção e o Prêmio Zózimo Bulbul (concedido por júri indicado pelo Centro Afrocarioca de Cinema e a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro – APAN), o documentário nasce de uma experiência pessoal: filha de uma ex-trabalhadora doméstica, Karol entrevista mulheres que são trabalhadoras domésticas. As conversas revelam lembranças emocionantes e relatos de situações de violência e exploração que ainda marcam a realidade de milhões de mulheres no Brasil.

Assalto à Brasileira — de José Eduardo Belmonte. Vencedor de três prêmios na última edição do Festival de Brasília, longa do diretor José Eduardo Belmonte relembra um dos roubos mais marcantes da história do Brasil e o mais memorável da história de Londrina

Deus ainda é Brasileiro — de Carlos Diegues. Do clássico Deus é Brasileiro (2003), a aguardada sequência traz uma nova jornada de Deus (Antônio Fagundes) em terras brasileiras. Desta vez, Deus retorna à Terra após uma rebelião dos seres celestiais, que decidem lançar um meteoro para exterminar a humanidade, frustrados com os rumos tomados pelo planeta.

Eclipse — o novo longa-metragem de Djin Sganzerla, que assina a direção, o roteiro, a produção e interpreta a protagonista da obra, foi selecionado para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontecerá de 16 a 30 de outubro. O filme, produzido pela MERCÚRIO PRODUÇÕES e com distribuição da Pandora, é um thriller que reflete sobre a violência contra a mulher, ancestralidade, intuição e resistência.

Família de Sorte — de Viviane Ferreira, Com roteiro da dramaturga e roteirista Maria Shu (‘Irmandade’ 2a temporada, ‘Bom Dia, Verônica’ 2a temporada). O longa tem como protagonista o casal Maicon (Robson Nunes, de ‘Tim Maia’ e ‘Carandiru’) e Jennifer (Micheli Machado, de ‘Todas as Flores’ e ‘Quanto mais Vida, Melhor’), que moram com suas filhas, Bionci (Duda Oliveira) e Riana (Carol Roberto), em um Conjunto Habitacional em São Paulo. Quando Maicon é demitido e as contas apertam, ele decide se inscrever no seu reality show favorito. Para sua surpresa, Jennifer, que foi inscrita secretamente pelo seu irmão, é selecionada e ele não. Maicon terá que assumir sozinho a responsabilidade da casa e os cuidados com as filhas durante três meses, tempo em que Jennifer estará no reality.

Honestino — de Aurélio Michiles, fusão de documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é um dos centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso.

Malaika — de André Morais. O filme narra a trajetória de Malaika, uma adolescente albina, no interior do Nordeste. A luz do sol é uma ameaça, como também é sua rotina ao lado da mãe, Isabel, uma mulher negra que trabalha para uma família burguesa. Enquanto Malaika busca sua identidade no mundo, um lobo ronda seus caminhos.

Morte e Vida Madalena — de Guto Parente, o filme teve sua première mundial no festival FIDMarseille, integrou a competição internacional da 36ª edição do festival. Em seguida passou pela 49º Mostra Internacional de SP e pelo 58º Festival de Brasília. Filmado no Ceará, o longa acompanha Madalena, uma produtora grávida de oito meses que busca concluir um filme de ficção científica escrito pelo pai recém-falecido, enquanto lida com o caos de sua vida pessoal e profissional.

Nico — de Mariana Youssef, a nova comédia distribuída pela A +Galeria é estrelada por Murilo Benício (“Assalto à Brasileira”) e Kevin Vechiatto (“Turma da Mônica”). O filme coloca seus protagonistas, um pai e um filho com um relacionamento estremecido, para encarar suas diferenças em uma viagem de carro inesperada. De um lado, um adolescente desconstruído, do outro, um comediante quarentão em crise.

Nosferatu — de Cristiano Burlan. O longe é rodado em preto-e-branco e é uma versão livre do personagem-ícone do Expressionismo Alemão, permitindo que sua abordagem para o terror passasse pela angústia de alguém que vive em fuga e não consegue se livrar de fantasmas do passado e do presente. O elenco traz nomes emblemáticos do cinema brasileiro, como Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet (em sua última atuação), ao lado de Rodrigo Sanches, que interpreta o vampiro-título.

O Espelho de Tarsila — de Paschoal Samora. Trata-se de um documentário sobre a vida e a obra da icônica artista Tarsila do Amaral, Nas palavras do diretor: “Articuladora e musa incontestável do modernismo no Brasil, Tarsila agrega em si inúmeros arquétipos e signos de um país com uma história paradoxalmente trágica e telúrica, violenta e romântica.”

O Riso e a Faca — de Pedro Pinho. O filme teve sua primeira exibição no 78º Festival de Cannes e foi um dos mais comentados da mostra Un Certain Regard. O longa conquistou a crítica internacional com sua abordagem estética e narrativa política e arrancou reações calorosas da imprensa.

Pecadora — Com direção de Dainara Toffoli (“Manhãs de Setembro”, “De Volta aos 15”) e roteiro de Camila Raffanti (“O Lado Bom de Ser Traída”, “Olhar Indiscreto”), o longa é uma adaptação do best-seller homônimo da autora Nana Pauvolih. Seu elenco conta com Rayssa Bratillieri (“Elas por Elas”) como a jovem protagonista Isabel e José Loreto (“No Rancho Fundo”) como o sedutor Enrico, Hipólyto (“Últimas Férias”) como Isaque, o marido de Isabel, e Marcos Pasquim (“Fim”) no papel do pastor Sebastião, o pai da protagonista.

Ruas da Glória — escrito e dirigido por Felipe Sholl. Ambientado no centro do Rio de Janeiro, acompanhamos Gabriel, um jovem professor de literatura que acaba de se mudar para a cidade. Ao conhecer Adriano, um garoto de programa, vive uma paixão arrebatadora que rapidamente se transforma em obsessão. Quando Adriano desaparece, Gabriel inicia uma busca que o leva a mergulhar no submundo da prostituição, onde encontra uma nova rede de amigos.

Um Céu de Estrelas — de Tata Amaral. Um filme atemporal que volta aos cinemas em versão restaurada, com distribuição da Gullane+ no Mês da Mulher. Lançado originalmente em 1996, o filme retrata, com forte intensidade dramática, a violência doméstica e das relações de poder no espaço íntimo.

Um Pai em Apuros — de Carolina Durão. É uma comédia familiar que mostra como o caos pode unir (e transformar) uma família inteira. Conta com Dani Calabresa e Rafael Infante, que vivem um casal em torno dos desafios da vida doméstica.

Longas que estarão em Festivais internacionais este ano:

SE EU FOSSE VIVO… VIVIA, novo longa-metragem escrito e dirigido por André Novais Oliveira, integra a programação da Mostra Panorama do Festival de Berlim. O filme marca a estreia da lendária escritora Conceição Evaristo no cinema, ao lado de Norberto Novais Oliveira.

FIZ UM FOGUETE IMAGINANDO QUE VOCÊ VINHA integra a seleção oficial do Festival de Berlim 2026, na seção Forum. O primeiro longa-metragem da cineasta Janaína Marques terá sua estreia mundial na Berlinale, em uma das seções mais emblemáticas do festival, dedicada a obras de forte identidade autoral e liberdade formal.

ISABEL, dirigido pelo cineasta Gabe Klinger e protagonizado por Marina Person, novo filme produzido pela RT Features é selecionado para a mostra Panorama do Festival de Berlim, que começa no dia 12 de fevereiro.
Terceiro longa-metragem do diretor, a produção traz Marina Person como a personagem-título, uma sommelière no cenário de alta gastronomia de São Paulo que sonha em escapar do seu chefe controlador e montar seu próprio bar de vinhos. O roteiro, parceria entre Klinger e Person, mistura experiências pessoais da própria atriz com histórias de mulheres reais dentro da cultura de vinhos artesanais brasileiros.

FEITO PIPA, novo longa do diretor Allan Deberton (“Pacarrete”, “O Melhor Amigo”), foi selecionado para a mostra Generation e representará o Brasil na 76ª edição do Festival de Berlim, em fevereiro. Estrelado por Lázaro Ramos (“Medida Provisória”), Teca Pereira (“Kasa Branca”), Carlos Francisco (“Marte Um”) e pelo jovem Yuri Gomes, o drama é centrado em um garoto em busca de aceitação.

ANTÔNIO ODISSÉIA, primeiro longa-metragem do brasileiro Thales Banzai, terá sua première mundial no Slamdance Film Festival. Na trama, Antônio e sua melhor amiga, Ivone, decidem assaltar o boteco onde ele trabalha para roubar uma nova droga, dando início a uma jornada surreal que os conduz a encontros improváveis. Coprodução entre Brasil e EUA, o filme tem Antônio Pitanga e Leci Brandão em participações especiais.