ENTREVISTA | “Continente”, Davi Pretto ousa em um terror crítico e reflexivo

Continente estreou quinta, 31 de outubro, na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre

Terror “Continente” teve as suas duas sessões de estreia na Cinemateca Capitólio lotadas! O cinema estava todo decorado ao estilo Halloween, e contou com a presença do diretor Davi Pretto, a roteirista Paola Wink, parte da equipe, e elenco local. Conversamos com a atriz Silvia Duarte, que deu vida a personagem Maria, e também com o diretor do longa,  Davi Pretto. A primeira parte destas entrevistas você pode conferir em vídeo no nosso instagram. E a segunda, você confere abaixo, transcrita.

Continente, estreia Cinemateca Capitólio

Daya Moraes: Davi Pretto é um diretor jovem, mas que já tem no currículo, longas como Castanha (2014),  Rifle (2017)  e Continente (2024). Como é a experiência de ter feito 3 grandes filmes, tão jovem, e quais as tuas referências, inclusive outros diretores, neste processo? 

Bah, é muita gente! Eu sempre fui uma pessoa que viu no cinema a possibilidade de ter uma vida livre. Minha mãe trabalhou na Caixa Econômica Federal como caixa de banco, ela trabalhou a vida toda dela lá, e ela sempre dizia: ” Vai fazer outra coisa, só não fica enclausurado nesse caixa de banco!” E eu tentei ser músico, não consegui ser músico, e sempre queria tentar fazer alguma coisa e eu acho que não só cineastas me influenciaram, mas todas as pessoas que passaram pela minha vida. Eu acho que eu só pude fazer 3 filmes neste período de 10 anos porque tiveram muitos técnicos, outros colegas, atrizes, atores, muitas pessoas que tiveram junto comigo e essas pessoas realmente são muitas, eu não poderia nem nomear, porque são muitas. Elas estão nos créditos dos meus filmes, e eu devo a elas, principalmente. Por que elas fizeram esse sonho de viver de cinema realidade, muitas vezes eu não tive dinheiro para fazer filme. O Castanha, por exemplo, a gente fez só com R$60.000, que para um longa metragem não é quase nada, é um orçamento de um curta, na verdade, e foi graças a essas pessoas que acreditavam na história, que acreditaram no projeto, que queriam fazer aqueles filmes acontecerem, então se eu devo a alguém, é principalmente a eles, a cinefilia é outra história, mas eu devo a essas pessoas.

Daya Moraes: Neste momento de lançamento do filme “Continente”, com sua divulgação em tantos lugares importantes, como Festival do Rio, Munique, entre outros, é possível falar em voz alta: “Consegui, tá tudo certo!”? 

Eu acho que dá para dizer “a gente conseguiu!” porque é uma conquista de muita gente, esse filme teve o esforço de 3 países, coprodutores do Brasil, da França e da Argentina que trabalharam 5 anos neste filme. Três roteiristas, um elenco de mais de 20 pessoas, uma equipe de 100 pessoas que realmente acreditaram neste filme por muito tempo, então sim, dá para dizer que a gente conseguiu, e a sessão de hoje é uma celebração. É uma celebração do trabalho destas pessoas, que trabalham com cultura, que acreditam na cultura em um país, que muitas vezes odeia a cultura. A gente vê um governo, que até pouco tempo queria que a cultura acabasse, e essas pessoas sobreviveram a esse governo também, então a gente também conseguiu isso. Conseguimos sobreviver.  Esse filme nasceu durante o governo Bolsonaro, conseguiu ser feito durante aquele governo terrível, a gente conseguiu!

Daya Moraes: Esta semana viralizou na internet, um comentário falando que o cinema brasileiro só usa a temática de pobreza e favela. O cinema nacional é rico em gênero e também em temáticas abordadas,  e infelizmente, muitos brasileiros não tem essa ânsia de busca, de pesquisa, de procurar, então acredito, que fazer um filme, não é só desafiador pela questão do orçamento, mas também para encarar, um público que não tem tanto interesse, ou que deveria ter um pouco mais de interesse no próprio cinema. 

Sim, totalmente! Eu acho que existe muito cinema brasileiro, não existe um cinema brasileiro, existe cinemas brasileiro, existe cinema de comédia, de horror, de cinema social, super íntimos, histórias super pessoais, linguagem de experimentação, existe muita coisa. O que a gente precisa, primeiro, é espaço nos cinemas, porque tá cada vez mais difícil, a gente chega numa sala, e tem 5 salas exibindo o mesmo filme. A gente está estreando essa semana, tem esse filme aí “Venom não sei o que”, ele está em 5 salas do mesmo cinema. É uma competição muito injusta, por isso que o povo brasileiro pode não conhecer, mas é o nosso papel também lutar para que as pessoas conheçam, divulgar, e eu tenho certeza que quanto mais o povo brasileiro retornar ao cinema brasileiro, como já foi antes. O cinema brasileiro nos anos 60,70, eram um sucesso de público. Esse cinema que a gente está aqui, Capitólio, arrastava multidões para ver filmes brasileiros, desde a época que foi fundado nos anos 30. Vai voltar, a gente faz cinema porque a gente acredita que vai conseguir de novo, cada vez mais, a gente espera, se comunicar e poder interagir com o público.

Estreia de Continente na Cinemateca Capitólio
Davi Pretto (diretor), Daya Moraes (Dropzando), Paola Wink (roteirista)

Assistimos ao terror “Continente” na segunda sessão, e saímos bastante impactados da sala do cinema. Davi Pretto ousa em um terror crítico e reflexivo, que perturba e nos faz pensar nas várias temáticas abordadas ao longo do filme. O diretor não usa do gênero para chocar. Entretanto, dentro de uma atmosfera densa e perturbadora, nos faz refletir sobre problemas sociais que nos acompanham a séculos. É um filme extremamente interessante, e que além de surpreender, ensina.

Leia mais sobre “Continente” aqui no site